Quem é o mais forte na Terra-média? Entenda a escala de poder em Tolkien
Abigail Mascarenhas
Redatora
(Foto: Divulgação/New Line Cinema, 2001)
Quando se fala sobre o universo de J.R.R. Tolkien, a discussão sobre quem venceria quem em um duelo é praticamente um esporte oficial entre os fãs. Mas tentar medir a força na Terra-média não é tão simples quanto contar o nível de poder de um herói de anime ou comparar o peso dos heróis das HQs. Tolkien não construiu seu mundo baseado em força física bruta ou em quem solta o raio laser mais destrutivo; para o Professor, o poder está profundamente ligado à linhagem espiritual, à autoridade divina e, acima de tudo, ao propósito na engrenagem da criação.
Para entendermos quem realmente senta no topo dessa pirâmide, precisamos olhar além do que a trilogia cinematográfica de Peter Jackson nos mostrou. Nos cinemas, Sauron é a grande ameaça definitiva, uma armadura colossal que varre exércitos com um golpe de maça ou um olho flamejante que tudo vê. Só que, na cronologia real daquele universo, o Senhor Sombrio de Mordor era apenas o segundo na hierarquia do mal. Ele começou sua jornada como um mero discípulo de Melkor, mais tarde batizado pelos elfos como Morgoth, o verdadeiro primeiro Lorde Sombrio e a personificação original do caos em Arda. Morgoth era um dos Valar, os seres angélicos mais poderosos moldados por Eru Ilúvatar (o Deus supremo do lore tolkieniano). Na sua força total, Morgoth era capaz de erguer cadeias de montanhas e despedaçar continentes inteiros.
O que chama atenção aqui é que esse poder não é estático. Uma das regras mais fascinantes da cosmologia de Tolkien é que a maldade corrompe e, ironicamente, enfraquece o próprio portador a longo prazo. Morgoth dispersou tanto de sua essência divina para controlar a matéria da Terra-média e criar suas raças de monstros (como os orcs e os trolls) que acabou se tornando vulnerável, a ponto de ser ferido em combate físico pelo rei elfo Fingolfin e, eventualmente, ser banido para o Vazio de forma humilhante. Sauron seguiu exatamente a mesma cartilha: despejou a maior parte de sua força nativa de Maia (uma classe de espírito logo abaixo dos Valar) dentro do Um Anel para conseguir dominar as mentes dos povos livres. Sem a joia no dedo, ele se tornou uma sombra impotente, incapaz até de manter uma forma física estável.
Mas a verdade é que, se tirarmos as divindades abstratas da jogada e focarmos nos personagens que de fato caminharam pela Terra-média durante a Terceira Era, a balança ganha contornos muito mais interessantes. Se Sauron com o Anel ocupa o topo isolado desse período, logo abaixo dele a disputa é acirrada. Figuras como Galadriel e Elrond não eram apenas governantes sábios; eles carregavam a herança de eras onde os elfos duelavam contra balrogs. A Senhora de Lothlórien, em especial, possuía uma estatura mística tão imensa que foi capaz de derrubar as muralhas de Dol Guldur sozinha apenas com a força de seu pensamento e de seu anel, Nenya.
E tem mais: não dá para esquecer dos Istari, os magos enviados para guiar os povos livres. Gandalf e Saruman pertencem à mesma categoria espiritual de Sauron. A diferença crucial é que eles foram enviados em corpos mortais, com seus poderes severamente limitados para que não tentassem competir pelo domínio do mundo através da força. Quando Gandalf retorna como o Mago Branco, ele recebe uma "atualização" de sua autoridade espiritual, o que fica claro quando ele despedaça o cajado de Saruman apenas com uma ordem verbal. Ainda assim, a maior força de Gandalf nunca esteve em feitiços pirotécnicos, mas sim na sua capacidade inabalável de inspirar a coragem no coração dos homens o que prova que, no fim das contas, a escala de poder em Tolkien é menos sobre destruição e muito mais sobre a capacidade de resistir à corrupção do tempo e do mal.
