Do Trem para a História: Como Nasceu a Magia de Harry Potter
Abigail Mascarenhas
Redatora
Aquarela original da 1ª capa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, ilustrada por Thomas Taylor em 1997. Foto: Sotheby's / Divulgação
Tudo começou em 1990, em um trem lotado e atrasado que viajava de Manchester para a estação de King's Cross, em Londres. J.K. Rowling, na época trabalhando como secretária e pesquisadora, não tinha sequer uma caneta funcionando na bolsa para anotar a ideia que acabou de instalar na sua mente. A imagem era muito nítida: um menino magricela, de óculos redondos e cabelos pretos despenteados, que não fazia a menor ideia de que era, na verdade, um bruxo. Sem poder registrar nada no papel durante as quatro horas de viagem, ela passou o percurso inteiro alimentando os detalhes daquela história, imaginando a escola de magia, os professores, o banquete de boas-vindas e a dinâmica dos personagens que mudariam a cultura pop para sempre.
A partir daquele dia, a construção do lore do Mundo Bruxo virou uma obsessão diária, mas o caminho até as prateleiras esteve longe de ser romântico. Nos anos seguintes, Rowling enfrentou uma sequência de momentos devastadores, incluindo a morte de sua mãe por esclerose múltipla, um trauma doloroso que acabou moldando diretamente a forma profunda e visceral como a perda e o luto são tratados na saga. Mais tarde, após um casamento conturbado em Portugal e um divórcio doloroso, ela se viu morando em Edimburgo, na Escócia, sobrevivendo com ajuda da assistência social e cuidando sozinha de sua filha bebê. Era nos cafés da cidade, aproveitando os momentos em que a filha dormia no carrinho após longas caminhadas no frio, que ela manuscrevia capítulo por capítulo do que viria a ser A Pedra Filosofal.
O que chama atenção aqui é a persistência quase teimosa diante da rejeição. Quando o manuscrito finalmente ficou pronto em uma máquina de escrever manual de segunda mão, Rowling enviou os primeiros capítulos para diversas editoras britânicas. O resultado? Doze recusas seguidas. A maioria dos editores achava a história longa demais para o público infantil da época ou simplesmente não enxergava apelo comercial na jornada do garoto da cicatriz na testa. A reviravolta só aconteceu quando Nigel Newton, presidente da pequena editora Bloomsbury, levou o rascunho para casa e sua filha de oito anos, Alice, devorou o primeiro capítulo e exigiu desesperadamente o resto da história.
Mesmo com o sinal verde da Bloomsbury, o otimismo inicial no mercado era discreto. A tiragem inicial de Harry Potter e a Pedra Filosofal, lançada em junho de 1997, foi de modestos 500 exemplares dos quais cerca de 300 foram distribuídos diretamente para bibliotecas públicas. Para completar, a editora sugeriu que a autora usasse o pseudônimo "J.K." em vez de seu primeiro nome, Joanne, temendo que os meninos leitores recusassem um livro de fantasia escrito por uma mulher.
Mas a verdade é que a força daquela narrativa não precisou de grandes campanhas de marketing para estourar. O boca a boca entre crianças, pais e professores transformou o livro em um fenômeno orgânico sem precedentes. Em poucos meses, o garoto que vivia no armário debaixo da escada da Rua dos Alfeneiros já dividia opiniões de críticos, conquistava prêmios literários e pavimentava o terreno para o surgimento da comunidade fã mais engajada do planeta, redefinindo o mercado editorial e abrindo portas para toda uma geração de obras infantojuvenis nas décadas seguintes.
