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    Bruxos • Harry Potter

    O coração que acolheu o Menino Que Sobreviveu

    Abigail Mascarenhas

    Abigail Mascarenhas

    Redatora

    15 de junho de 20267 min de leitura
    O coração que acolheu o Menino Que Sobreviveu

    (Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures)

    Por que Molly Weasley é a maior fortaleza de Harry Potter

    Existe uma beleza muito particular na forma como descobrimos nossas grandes paixões literárias. Para quem cresceu nos anos 1990 ou início dos 2000, essa descoberta costumava ter um cenário fixo: o pátio da escola, o empréstimo despretensioso de um livro com a capa desgastada e a posterior peregrinação até a locadora mais próxima para ver se o filme já estava disponível na prateleira. Foi exatamente assim que o universo de Harry Potter me pegou. Mas o que realmente fascina na nossa relação com a obra de J.K. Rowling é como ela amadurece conosco. O tempo passa, nós mudamos, revisitamos as páginas (ou nos rendemos à praticidade deliciosa dos audiobooks enquanto lavamos a louça) e percebemos que personagens que antes pareciam apenas coadjuvantes ganham uma estatura gigantesca.

    Ninguém ilustra melhor essa mudança de perspectiva do que Molly Weasley. Na primeira leitura, na pré-adolescência, ela pode parecer apenas aquela mãe enérgica, sempre berrando com os gêmeos ou mandando cartas de advertência. Mas quando revisitamos os livros, onde a história respira sem os cortes brutais necessários para fazer o enredo caber em duas horas de cinema, percebemos que Molly é a verdadeira espinha dorsal afetiva de toda a saga. Ela é a personificação de um amor que não é passivo; é uma força feroz, protetora e, acima de tudo, revolucionária em tempos de guerra.

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    O instinto que não precisava de cicatriz

    O que torna o primeiro encontro de Harry com Molly na Plataforma 9 ¾ tão bonito é o anonimato. Harry é apenas um garoto magricela, nitidamente perdido e assustado com uma mala pesada demais para ele. Molly não sabe quem ele é. Ela não vê a cicatriz de raio, não sabe do status lendário daquela criança no mundo bruxo. Tudo o que ela enxerga é um menino precisando de orientação. Ela o acolhe com uma gentileza imediata, o encoraja e faz questão de colocar Rony no mesmo vagão para garantir que o garoto não fique isolado.

    A magia de Molly está nos detalhes cotidianos, aqueles pequenos atos de resistência contra a frieza do mundo. Quando Fred e Jorge descobrem a identidade de Harry e começam a bombardeá-lo com a curiosidade típica de quem vê uma celebridade, é Molly quem os freia imediatamente. Ela entende, com uma sensibilidade puramente maternal, que o garoto acabou de passar por um trauma terrível e não precisa ser tratado como uma atração de circo. No Natal daquele mesmo ano, ao saber por Rony que Harry nunca esperava ganhar presentes de seus tios, ela tricotou o primeiro de muitos suéteres, verde-esmeralda, cirurgicamente escolhido para combinar com os olhos dele, acompanhado de doces caseiros. Sem saber, Molly estava dando a Harry a primeira prova concreta de que ele pertencia a algum lugar.

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    A Toca como o oposto da Rua dos Alfineiros

    A dinâmica estabelecida em A Câmara Secreta deixa explícito o contraste entre a rejeição dos Dursley e o acolhimento dos Weasley. A cena em que os meninos "sequestram" Harry usando o Ford Anglia voador e chegam de madrugada na Toca é memorável. Molly surge no quintal possuída pela fúria justa de uma mãe preocupada com o perigo que os filhos correram. Ela esbraveja com os gêmeos e com Rony, mas a chave vira em um milésimo de segundo quando seus olhos pousam em Harry. A agressividade se dissolve em doçura. Horrorizada com a magreza do garoto, ela empilha ovos fritos no prato dele e passa o resto dos dias blindando-o de qualquer bronca. Harry, que sempre foi tratado como um estorvo na Rua dos Alfineiros, de repente se vê no centro de um lar onde o amor é servido em porções generosas de comida e proteção.

    E esse cuidado se repete em cada crise. Seja segurando Harry por perto durante a pancadaria física entre Arthur e Lucius Malfoy na Floreios e Borrões, seja direcionando sua fúria apenas para Rony através daquele Berrador antológico, poupando Harry de qualquer culpa pelo carro voador, ela sempre soube separar as travessuras da necessidade de segurança do garoto. Quando a Câmara Secreta é finalmente fechada e Gina é resgatada, o abraço esmagador e choroso que Molly dá em Harry na sala de McGonagall é o selo definitivo: ele não era apenas o melhor amigo do seu filho; ele era parte da família.

    A disputa pelo direito à infância

    À medida que as trevas avançam a partir do terceiro ano, a proteção de Molly se torna mais complexa e, por vezes, angustiante. No Prisioneiro de Azkaban, quando os Weasley se reúnem no Caldeirão Furado, a tensão dela é palpável devido à fuga de Sirius Black. É atrás de uma porta entreaberta que Harry testemunha uma das discussões mais reveladoras entre Molly e Arthur. Enquanto o marido defende que Harry tem o direito de saber que é o alvo do fugitivo de Azkaban, Molly bate o pé, furiosa e apavorada. Para ela, Harry é um menino de treze anos que merece ser poupado do pânico. Ela não o enxerga como uma peça de xadrez em uma guerra iminente, mas como uma criança cuja inocência precisa ser preservada a todo custo.

    Essa postura atinge seu ápice dramático no jantar no Largo Grimmauld, em A Ordem da Fênix. O embate verbal entre Molly e Sirius Black é uma das cenas mais densas da literatura pop. Quando Sirius argumenta que Harry não é filho dela, a resposta de Molly é um soco no estômago de qualquer leitor quando ela diz que o Harry é como seu filho, e pergunta e quem mais ele tem.

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    É um momento cruel, onde ela joga na cara de Sirius o tempo em que ele esteve trancado enquanto ela cuidava do garoto, mas é um egoísmo nascido puramente do desespero de ver mais um jovem sendo tragado pela violência dos adultos.

    O medo de Molly nunca foi abstrato. Mais adiante, naquele mesmo livro, a cena em que Harry a encontra chorando diante de um Bicho-Papão é de despedaçar o coração. A criatura se transforma sucessivamente nos cadáveres de toda a sua família: Rony, Gui, Arthur, os gêmeos... e, finalmente, no corpo sem vida de Harry. Ali, o canon deixa claro que, no mapa da dor e do amor de Molly, Harry ocupa exatamente o mesmo espaço que seus filhos de sangue.

    O relógio amassado e o abraço final

    Muitos se lembram de Molly pelo ápice heróico em As Relíquias da Morte, quando ela joga o casaco para o alto e destrói Bellatrix Lestrange com o icônico brado em defesa de Gina. É uma cena fantástica, de lavar a alma, onde uma mãe de família derrota a Comensal da Morte mais perigosa de Voldemort, provando que o amor protetor é muito mais poderoso do que o sadismo. Outro ápice da personagem acontece um pouco antes, no aniversário de dezessete anos de Harry.

    Pela tradição bruxa, ao atingir a maioridade, o jovem ganha um relógio de ouro. Sabendo que a situação financeira da Toca impossibilitava a compra de uma peça nova, Molly entrega a Harry o relógio que pertenceu ao seu falecido irmão, Fabian Prewett, morto na Primeira Guerra. Entregar uma joia de família, gasta, amassada pelas memórias de alguém que ela perdeu para as trevas, é o maior ato de legitimação que Harry poderia receber. Não havia mais dúvidas: ele era, por direito e por amor, um Weasley.

    A jornada de Harry Potter é marcada por grandes mentores, sacrifícios heróicos e magias antigas. Mas quando a poeira da Batalha de Hogwarts finalmente baixa no Salão Principal, entre o luto pelos que caíram e o silêncio do fim da guerra, Harry não busca as glórias do mundo bruxo. Ele olha para a mesa dos Weasley, onde Molly está cercada por seus filhos sobreviventes. Ao ver o garoto, ela simplesmente abre os braços. E é ali, no calor daquele abraço que ele conheceu aos onze anos na plataforma de um trem, que o Menino Que Sobreviveu finalmente encontra o seu descanso. Como sempre deveria ter sido.


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