A armadilha do “só mais um dia”: por que Stardew Valley nunca tem um ponto final
Abigail Mascarenhas
Redatora
Stardew Valley / ConcernedApe via Steam / Reprodução
Todo mundo que já colocou as mãos em Stardew Valley conhece a armadilha clássica do “só mais um dia”. Você abre o jogo numa terça-feira à noite com a intenção inocente de apenas regar alguns pés de morango, colher um lote de couve-flor e fechar o computador para dormir cedo. Três horas depois, passa das duas da manhã na vida real e você está no meio das Minas, com a mochila lotada de quartzo, desviando desesperadamente de morcegos e calculando quantos dias faltam para a Feira do Vale do Orvalho só para tentar humilhar o prefeito Lewis na exibição dos produtos. O que Eric Barone, o lendário ConcernedApe, criou praticamente sozinho não foi apenas um simulador de fazenda nostálgico inspirado nos primeiros jogos de Harvest Moon, mas uma experiência de vida rural que conquistou milhões de jogadores. Barone passou cerca de quatro anos desenvolvendo sozinho o jogo, cuidando de programação, arte, música, design e outros elementos da produção.
A graça de passar semanas limpando mato, plantando abóbora e papeando com os moradores da Vila Pelicanos mora justamente na liberdade que o jogo oferece. Não existem passes de batalha expirando, notificações gritando por atenção ou uma punição real caso você decida ignorar completamente o Centro Comunitário para passar três semanas inteiras pescando no píer do Willy, ouvindo o som das ondas em pixel art. Se hoje você só quer organizar baús por cores ou planejar onde vai colocar o próximo galinheiro para criar galinhas azuis, o jogo permite que você siga esse caminho no seu próprio ritmo. É uma das características que ajudam a explicar por que Stardew Valley consegue funcionar tanto como RPG quanto como uma experiência de fazenda aberta e bastante flexível.
Mas a verdade é que, quando o relógio finalmente acumula dezenas ou centenas de horas e você chega ao conteúdo de fim de jogo, incluindo a busca pela chamada Perfeição, pode bater aquela pontinha inevitável de saudade da primeira viagem no ônibus da Pam. E é exatamente aí que entra uma das maiores forças do jogo fora do conteúdo oficial: a comunidade de modding. O SMAPI, uma ferramenta criada especificamente para carregar mods de Stardew Valley, permite expandir e modificar o jogo de inúmeras maneiras. Atualmente, o projeto continua recebendo atualizações e oferece suporte às versões modernas do jogo em diferentes plataformas de PC.
A própria Perfeição, aliás, é bem mais abrangente do que simplesmente ter uma fazenda cheia de dinheiro. O sistema considera uma série de objetivos, como enviar determinados itens, construir os quatro obeliscos e o Relógio Dourado, atingir níveis máximos de amizade, completar as metas de extermínio de monstros, cozinhar receitas, fabricar itens, capturar todos os peixes e encontrar todas as Nozes Douradas da Ilha Gengibre. Ao alcançar 100%, novos conteúdos de fim de jogo são desbloqueados.
E tem mais: não estamos falando apenas de mudar a cor da casa ou colocar um penteado novo no seu fazendeiro, embora as alterações estéticas criadas pelos fãs sejam de um bom gosto absurdo. A expansão mecânica e narrativa é colossal. Projetos como Stardew Valley Expanded e Ridgeside Village acrescentam novos personagens, áreas, eventos, missões, itens e outras possibilidades à experiência original. Ridgeside Village, por exemplo, atualmente anuncia mais de 50 novos NPCs, novos locais, lojas, festivais, histórias e missões, além de personagens que podem ser romanceados.
O importante é lembrar que esse conteúdo não faz parte do cânone oficial de Stardew Valley. Ridgeside Village, por exemplo, declara explicitamente que suas histórias não são canônicas, embora o projeto procure manter a estética, o clima e a sensação do jogo original.
Pensando por esse lado, o título atinge uma longevidade rara. Você pode transformar a experiência com mods que adicionam novos conteúdos e desafios ou simplesmente instalar ferramentas de qualidade de vida que tornam determinadas tarefas menos trabalhosas. A variedade é enorme: há modificações focadas em mapas, personagens, histórias, estética, automação, interface e praticamente todos os aspectos imagináveis da experiência. O SMAPI funciona justamente como uma das principais portas de entrada para esse universo de modificações.
É o tipo de jogo que pode começar como uma fuga despretensiosa da rotina e, graças ao trabalho contínuo de sua comunidade, ganhar novas possibilidades mesmo depois de centenas de horas. Stardew Valley já oferece uma quantidade enorme de conteúdo por conta própria, mas os mods transformam essa experiência em algo ainda mais personalizável. Se você achava que já tinha visto tudo o que a Vila Pelicanos tinha para oferecer, talvez descobrir o universo do modding seja exatamente a desculpa necessária para voltar para a fazenda.
